ESTUDANDO A PALAVRA

ESTUDANDO A PALAVRA

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A IMPORTÂNCIA DA LÓGICA NA PREGAÇÃO - por: João Ricardo Ferreira de França.


Introdução.
A grande arte da exposição bíblica exige de muitos pregadores operações lógicas. Que carecem de uma ampla qualificação para fazê-la com grande maestria. As vezes nos surpreendemos com a falta de coesão nos discursos proferidos nos púlpitos de nossas Igrejas; e, o público fica sem entender a mensagem que está sendo proclamada.
A lógica é necessária para a prática discursiva do pregador? Esta é a pergunta que precisa de respostas claras, objetivas e seguras. Na vida e no ministério pastoral é necessário a presença da lógica, isto pode ser facilmente percebido dentro das Igrejas que se alinham à teologia da Reforma Protestante, especificamente os que são calvinistas; estes, sem sombra de dúvidas, buscam na lógica apoio para ordenar seus pensamentos na hora da exposição Bíblica.
Neste trabalho nós discutiremos sobre a Importância da Lógica na Prática Discursiva do Pregador. Este tema é relevante para nós, pois, se desejamos ser de fato pregadores que falem ao nosso público com clareza e se desejamos uma resposta do nosso povo à mensagem que estão ouvindo faz-se necessário estudarmos este assunto.
I – A LÓGICA É IMPORTANTE PORQUE NOS TORNA EXPOSITORES QUE BUSCAM A UNIDADE NO DISCURSO.
Esta é a primeira verdade que podemos dizer sobre a importância da lógica na prática da pregação do Evangelho. Isto começa quando os pregadores buscam elaborar os seus sermões tendo como objetivo a unidade de seu tema a ser proclamado. Isto porque a "pregação sem a disciplina da unidade tipicamente leva o pregador a apenas andar a esmo, perdido em seus pensamentos" (CHAPELL, 2002, p.38). Ora, se o pregador não consegue ser um expositor que prima pela unidade do seus discurso, ele de fato não está falando à consciência dos homens e mulheres que encontram-se no seu auditório.
Esta unidade temática, que vem por meio da prática lógica, faz com que a Igreja seja de fato edificada, pois, "alimentar o rebanho de Deus é...ensinar à Igreja. O pastor, portanto, é essencialmente um mestre"(STOTT, 2003, p.125).
O que acontece com um pregador que se recusar a estudar a lógica? Quando ele pensa que sabe tudo, mas não consegue ordenar os seus pensamentos. Se o pastor não for claro, não almejar uma unidade em seu discurso para que ele serve? Ele pode ser classificados entre aqueles que em "cujos estudos são superficiais[e] que ficam confusos e que confundem [os seus ouvintes]"(RAMSEY, 1971, p.7).
Mas quanto a esta questão é bom que se diga que um "sermão não é somente uma lição sistemática"( CHAPELL, 2002, p.43), ela deve, logicamente, demonstrar a vida de piedade daquele que profere tal mensagem; isto quer dizer que uma pregação deve ser avaliada em termos da autoridade da Bíblia que contém uma unidade e coesão singular, tal verdade aponta para a realidade de que:
Sem a autoridade da Palavra, a pregação torna-se uma infindável busca de assuntos, terapias e técnicas que granjearão aplausos, provocam aceitação, desenvolvam uma causa ou aliviem preocupações. A razão humana, as agendas sociais, o consenso popular e as convicções morais pessoais, transformam-se em recursos da pregação que carecem da "convicção histórica de que o que a Escritura diz, Deus diz" (PACKER, 1965, p. 18).
Ou seja, para que pregação seja logicamente aceita ela deve estar fundamenta na autoridade da Palavra de Deus, isso aponta para a realidade de que se não existe uma pregação lógica em nossos dias é porque tal pregação não se prende aos termos da revelação de Deus.
Mesmo que sejamos habilidosos no uso da lógica, mas se a Palavra não governar as nossa mentes e vidas nada fazemos, deixaremos nosso público confuso porque não teremos unidade em nossa exposição; unidade não apenas no falar, mas também em nosso viver de conformidade com aquilo que falamos, isso é lógica prática na vida do pregador; nos fará bem se guardarmos as palavras de Chapell:
Sabemos serem insuficientes nossas habilidades para uma tarefa de tão amplas conseqüências. Reconhecemos que o nosso coração não é puro o bastante para guiar outros à santidade. Uma honesta avaliação de nossa perícia inevitavelmente nos leva à conclusão de que não temos eloqüência ou sabedoria capazes de levar as pessoas da morte para a vida. (CHAPELL, 2002, p.17.)

II – A LÓGICA É IMPORTANTE PORQUE NOS TORNA EDUCADORES DA MENTE.
Esta é a segunda verdade sobre a importância da lógica na pregação. Todavia, a fim de que isso seja possível a mente do pregador precisa também ser educada. A lógica e o estudo diligente o torna capaz de realizar tal empreitada. "Toda preparação para pregar começa com a mente" (LAWSON, 2008, p.47.) este um axioma que não pode ser negado por qualquer pregador que deseja edificar o seu povo. João Calvino, grande exemplo de expositor, que aplicou a lógica em seus discursos, dirigiu-se aos pregadores de seu tempo nos seguintes termos:
Todos devemos ser alunos das Sagradas Escrituras até ao fim, e igualmente aqueles designados para proclamar a Palavra. Se subimos ao púlpito, é sob esta condição: que aprendamos enquanto ensinamos aos outros. Não estou falando aqui apenas para que me ouçam, mas eu também, de minha parte, devo ser um aluno de Deus, e a palavra que sai de meus lábios deve ser benéfica para mim mesmo, do contrário, ai de mim! Os mais habilidosos com as Escrituras são tolos, a menos que reconheçam que precisam de Deus como seu professor todos os dias de sua vida (D’AUBIGNÉ, 2000, p.84-85).
Calvino ainda continua sua exortação dizendo: "O pastor, por meio de muito estudo, deve estar preparado para oferecer às pessoas uma variedade de instruções na Palavra de Deus, como se ele mesmo possuísse um estoque de coisas espirituais."(MILLER, J. Graham, 1992, p.256). A pregação precisa se lógica para alcançar sua função educativa dentro da Igreja, sem esta perspectiva teremos sermões que não comunicam nada à vida das pessoas.
O que tem conduzido o nosso mundo? Não tem sido a lógica ( ou ausência dela) do mundo? Precisamos retomar o que costuma dizer um antigo pregador: "O púlpito conduz o mundo!"(STOTT, op.cit, p.39).
Então, o que é pregar a palavra logicamente? O pastor e também professor de Lógica Vicent Cheung nos traz uma informação que é bastante elucidativa sobre isso:
Pregar é dar uma palestra, e deve ser algo intelectualmente maduro em conteúdo. Certamente, ao orador é permitido ajustar o conteúdo ao nível de entendimento atual da audiência e outras limitações (tal como atenção), mas não ao ponto em que se torne inteiramente confortável, e assim, não promova nenhum crescimento neles para acomodar mais materiais avançados no futuro. Embora para muitos seja anátema sugerir que a Bíblia ordena o crescimento intelectual, e duma forma definitiva o equacione com a santificação, isso é deveras o que ela ensina: "Portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade" (Hebreus 6:1); "Quem se alimenta de leite ainda é criança, e não tem experiência no ensino da justiça. Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal" Hebreus 5:13-14); "Irmãos, deixem de pensar como crianças. Com respeito ao mal, sejam crianças; mas, quanto ao modo de pensar, sejam adultos" (1 Coríntios 14:20); "...e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador" (Colossenses 3:10). (CHEUNG, 2002, p.9)

III – A LÓGICA É IMPORTANTE PORQUE NOS OFERECE CLAREZA E SIMPLICIDADE NA EXPOSIÇÃO BÍBLICA.
A lógica torna-se importante na prática discursiva do pregador porque nos oferece a clareza e a simplicidade. No mundo que vivemos precisamos ser claros naquilo que falamos para sermos compreendidos; os discursos do mundo pós-moderno estão cheios de contradições. E nós, como pregadores da palavra, precisamos ser o mais claro possível para sermos entendidos por este mundo. "Todo o nosso ensino deve ser tão claro e evidente quanto nos seja possível" (BAXTER, 1996, p.39).
A lógica nos fornece ferramentas que podem ser usadas para tornar os nossos discursos claros ao mundo e não atraentes ao mundo, Paulo valeu-se da lógica para refutar as heresias, ele também ao proclamar o evangelho em Atenas fez de igual modo o uso da lógica (Atos.17); é nosso dever sermos lógicos e claros em nossas declarações; pois, de outro modo seremos obscuros e até usados como fontes para pensamentos equivocados.
Falar de modo claro e simples não significa rebaixar o seu nível, mas significa falar dentro do nível do seu público, o Catecismo Maior de Westmister reconhece esta verdade quando oferece a resposta à pergunta 159 sob os seguintes termos: "...devem pregar ...com clareza, não com palavras sedutoras de sabedoria humana, mas em demonstração do espírito e de poder;"(CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, 1980, p.125).
Mas, de que forma devem apresentar esta pregação aos seus ouvintes? "sabiamente acomodando-se às necessidades e às capacidades dos seus ouvintes"(CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, Resposta à pergunta 159, 1980, p.125). Isto significa que
Aquele que deve ser compreendido precisa falar à altura dos seus ouvintes. Deve ter como objetivo do seu afã fazer-se compreendido. A verdade ama a luz. É mais bela quando mais transparente, pois, é sinal invejosa inimizade odiar a verdade. É sinal de hipocrisia fazê-lo, fingindo revelá-la. (BAXTER, 1996, p.39).
O grande pastor Baxter continua nos exortando a sermos claros em nossa exposição bíblica, ele diz:
Se o seu objetivo não é ensinar, o que estão fazendo no púlpito? E se seu objetivo é ensinar, por que não falar de maneira que sejam compreendidos? Não há melhor meio de fazer uma boa causa prevalecer do que fazê-la tão claramente, bem como universalmente, e também completamente compreendida quando possível. Não ser claro mostra que, na verdade, vocês não digeriram bem o assunto. (BAXTER, 1996, p.39).

Isto significa que "o sermão deve Ter uma linguagem popular, com um vocabulário simples "crucificado" sem chamar atenção para o ego".(PIPA, 1999, p.6). Portanto, "o sermão deveria ser intensamente lógico, expondo a verdade, linha por linha, preceito por preceito".(PIPA, 1999, p.5).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS.
BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado, Trad. Odayr Olivetti, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996.
CHAPPEL, Brayan. Pregação Cristocêntrica – Restaurando o Sermão Expositivo Um guia Prático e Teológico para a Pregação Bíblica, Trad. Oadi Salum., São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
CHEUNG, Vicent. Prega a Palavra. Trad. Felipe Sabino, Cuíabá: Monergismo.com, 2002.
CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1980
D’AUBIGNÉ, J.H. History of Reformation in Europe in the time of Calvin,Volume VII. Harrisonburg, VA: Sprinkle Publications, 2000.
LAWSON, Steven J. A Arte Expositiva de João Calvino, Trad. Ana Paula Eusébio Pereira, São Paulo: Fiel, 2008.
MILLER, J. Graham, Calvin’s Wisdom: An Anthology arreged Alphabetically by grateful reader. Carlisle, PA; Edinburgh, Escotland: The Banner of Truth Trust,1992.
PIPA, Joseph. Sermão Puritano: Um Novo modelo de Exposição In: Revista Os Purintanos, São Paulo: 1999, Outubro a dezembro, p.1-8.
STOTT, John. Eu Crio na Pregação. Trad. Gordon Chown, São Paulo: Vida, 2003.

3 comentários:

Rev. Alexandre de Jesus dos Prazeres disse...

João, dê uma olhada no VOZ DA REFORMA há um prêmio para os seus blogs.

Um abraço.

Alexandre

Heitor Alves disse...

Fala João.

Estou te convidando para participar da Sociedade Calvinista. É u lugar para divulgar sites/blogs com conteúdo calvinista e reformado. E com direito a selo para exibir em seu blog!

Leia as diretrizes em http://www.eleitosdedeus.org/selo.html

Um abraço!

Anônimo disse...

olà professor João...
muita boa exposição sobre pregação.
dê uma olhada no blog de fábio, filosofia cavinista... andei estes dias desintendendo-me com ele... sobre a questão das posições do supremo concilio...
um abração!!!
Pb Alexandre Galvão